O Pacto, de Joe Hill

Ignatius Perrish sempre foi um homem bom. Tinha uma família unida e privilegiada, um irmão que era seu grande companheiro, um amigo inseparável e, muito cedo, conheceu Merrin, o amor de sua vida. Até que uma tragédia põe fim a toda essa felicidade: Merrin é estuprada e morta e ele passa a ser o principal suspeito. Embora não haja evidências que o incriminem, também não há nada que prove sua inocência. Todos na cidade acreditam que ele é um monstro. Um ano depois, Ig acorda de uma bebedeira com uma dor de cabeça infernal e chifres crescendo em suas têmporas. Descobre também algo assustador: ao vê-lo, as pessoas não reagem com espanto e horror, como seria de esperar. Em vez disso, entram numa espécie de transe e revelam seus pecados mais inconfessáveis. Um médico, o padre, seus pais e até sua querida avó, ninguém está imune a Ig. E todos estão contra ele. Porém, a mais dolorosa das confissões é a de seu irmão, que sempre soube quem era o assassino de Merrin, mas não podia contar a verdade. Até agora. Sozinho, sem ter aonde ir ou a quem recorrer, Ig vai descobrir que, quando as pessoas que você ama lhe viram as costas e sua vida se torna um inferno, ser o diabo não é tão mau assim. 

*** 

O Pacto, de Joe Hill, é um dos livros que mais gostei de ler nos últimos tempos e se tornou um dos meus favoritos no ano passado. Já começo explicando que esse é o tipo de livro difícil de classificar em um gênero específico. É uma mistura de fantasia, mistério, drama e romance; com um pouco de investigação e com toques de terror. Não chega a dar medo, mas tem uns trechos macabros.

Aqui conhecemos Ig Perrish, um cara normal que tinha uma vida perfeita, cheia de privilégios, pais e um irmão que o amavam, um melhor amigo de quem era inseparável desde a adolescência e uma namorada por quem era completamente apaixonado e com quem planejava viver o resto da vida. Tudo muda e o mundo de Ig é destruído quando Merrin, sua namorada, é estuprada e assassinada e ele se torna o principal suspeito do crime. Como não há evidência para inocentá-lo ou incriminá-lo, toda a cidade passa a tratá-lo de forma diferente, como um criminoso.

Um ano depois do ocorrido, a polícia ainda ainda não conseguiu encontrar um culpado e, após uma noite de muita bebedeira, Ig acorda um tanto mudado. Ao olhar seu reflexo no espelho, ele nota que tem chifres. Ao sair na rua e interagir com outras pessoas, ele percebe que elas não se assustam com sua aparência, mas entram em um estado de transe e começam a lhe confessar os seus pecados. Com essa nova ~habilidade, Ig decide encontrar o assassino de Merrin e, em sua jornada, descobrirá verdades dolorosas sobre as pessoas em sua vida. Determinado a obter algum tipo de justiça e cansado de rezar esperando dias melhores, Ig questiona até que ponto vale a pena viver como um homem bom.

O que mais me surpreendeu durante a leitura de O Pacto é que a história vai muito além da procura por um assassino e a busca por justiça ou algum tipo de vingança. Na verdade, esses aspectos funcionam mais como um pano de fundo para uma história muito mais profunda. A revelação do assassino, por exemplo, acontece muito antes do esperado e sem muito suspense. A informação chega até Ig e a história passa ser muito mais sobre o que ele fará após ter esse conhecimento.

A narrativa também merece destaque. Não só porque Joe Hill escreve muito bem (tenho certeza que há algo de especial na água da residência King), mas também pela forma como ela é estruturada. Tudo é contado de forma não linear, o que contribui para que o leitor se mantenha interessado pela história, enquanto tenta juntar as peças do quebra-cabeça e compreender os acontecimentos. A escrita do autor é bem envolvente - os capítulos terminam com ganchos - e durante toda a leitura me senti transportada para Gideon, cidade em que tudo acontece. 

Outro aspecto que quero destacar é a presença de metáforas com demônios, anjos, céu e inferno, além de referências bíblicas que permeiam todo o texto. Acho que funcionaram tanto para enriquecer a narrativa, quanto para deixar o leitor intrigado criando teorias em busca de explicações. Também tem bastante referência musical, principalmente de rock, o que eu adoro e sempre enxergo como algo positivo.

Por fim, preciso falar dos personagens. Joe Hill soube criar personagens muito reais, muito humanos, e em diversos momentos conseguia me colocar no lugar deles e entender suas frustrações, suas motivações, suas ações, etc. É difícil enxergar todos ali como 100% bons ou maus (menos um personagem específico; não vou dizer o nome, mas quem leu sabe). São personagens cheios de camadas e que em boa parte do tempo não são apenas aquilo que aparentam.

Terminei a leitura do livro feliz por ter tido a experiência, mas com uma sensação mista de tristeza e saudade, com a certeza de que irei reler em algum momento. E também com a certeza de que preciso ler mais livros do Joe Hill. Leitura recomendada!

PS: O livro também pode ser encontrado com o título Amaldiçoado, título de sua adaptação cinematográfica lançada em 2013.

★★★★

Nenhum comentário